Brasil: “O Espetáculo do Crescimento”

Quando, em 2003, o então presidente Lula anunciou que o Brasil viveria o “espetáculo do crescimento”, a frase parecia um dito populista, tributário ainda das promessas pífias que, ao longo de décadas, teimavam em nos definir como o “país do futuro”. Ocorre que nesses dez anos muita coisa de fato mudou, e o nosso crescimento econômico (ainda que oscilante), no contexto de um mundo em crise, fez do Brasil um “país emergente”. Internamente, a mecanização da mineração empresarial e da lavoura (agronegócio), somadas às grandes obras estatais de infraestrutura, querem redirecionar o caminho do crescimento econômico para as regiões Centro-Oeste, Norte e Nordeste do país, com reflexos nas cidades. É um retrato desse novo Brasil urbano, ainda mal localizado pelos radares do Sudeste e da crítica arquitetônica, que essa exposição pretende esboçar.
A equipe de pesquisa fez uma viagem exploratória a lugares-chave desse processo de transformação, nos estados de Pernambuco e do Pará. Santa Cruz do Capibaribe (PE) é hoje o 2o polo têxtil da América Latina. Já a pequena Salgueiro (PE) se tornou o novo centro de irradiação de importantes eixos infraestruturais do país, como a Ferrovia Transnordestina e o canal de Transposição do Rio São Francisco. E enquanto o Porto de Suape (PE), conhecido como a “China brasileira”, se prepara para ser a nossa maior refinaria de petróleo, Marabá e Parauapebas (PA) vivem os efeitos ao mesmo tempo impulsionadores e predatórios causados pela proximidade das minas de Carajás, e Altamira (PA) sofre uma considerável transformação com as remoções de população e o impacto ambiental provocados pela Usina de Belo Monte. 
Se esse novo desenvolvimentismo traz a memória do “milagre econômico” dos anos 1970, o Brasil que se entrevê agora não é mais apenas aquele da miséria que nasce com Brasília: Transamazônica, Serra Pelada, índios usando calça Lee. Hoje, parece que o “Bye-bye Brasil” dá a sua segunda volta no parafuso, com a presença do grande capital estrangeiro, associado à produção de commodities, e a diminuição das desigualdades tanto sociais quanto geográficas, fazendo surgir a ideia de uma nova “classe média”. Um conjunto de pessoas que compra geladeiras, televisões, carros e motos, e tanto é capaz de reformar as suas casas autoconstruídas nas cidades quanto pode receber imóveis nos grandes conjuntos suburbanos do Programa Minha Casa Minha Vida, abrindo novas frentes de expansão urbana. Resta saber se esse crescimento recente trouxe desenvolvimento real, promovendo melhor justiça social e educação para além do consumismo, ou se reatualiza os velhos contrastes brasileiros na forma de um inesperado crescimento do espetáculo.

(Guilherme Wisnik, texto de abertura da exposição Brasil: “O Espetáculo do Crescimento,

X Bienal de Arquitetura de São Paulo, 2013)