Sedução em escala monumental

Observada à distância, a edificação emerge em meio ao excesso de informação da paisagem, com sua volumetria facilmente legível e seu tom arenoso pálido. Localizado no Brás, bairro de vocação industrial e de comércio atacadista, também é historicamente ponto de atração para imigrantes, dos italianos e nordestinos no século 20 até os bolivianos e africanos de hoje. Ao somar a isso a onipresença das igrejas evangélicas, que fazem da área uma espécie de Meca pentecostal, o Brás é hoje um dos bairros mais instigantes de São Paulo, apesar de castigado pela expansão urbana descontrolada e pela arqueologia reversa da autoconstrução, fenômenos que a cidade conhece tão bem.

Quanto à sua linguagem arquitetônica, o que se observa é uma espécie de “pastiche ampliado”. O discurso visual adotado utiliza elementos que vão desde vidros espelhados da arquitetura corporativa a simbologias do Velho Testamento, sobretudo da cultura judaica. Exemplo disso é a gigantesca e dourada Arca da Aliança que, dourada e parcialmente oculta por trás de uma cortina diáfana, faz as vezes de fundo de palco da sala cerimonial. Para quem entra desavisado nesse espaço impressionante, especialmente quando se vem desde o ambiente hiperestimulante do bairro, o impacto de avistá-la é marcante. Aliada à luz de baixa intensidade, ao potente tratamento acústico, ao oceano de confortáveis poltronas e aos estímulos sonoros e visuais citados no início do texto, o que se experimenta ali é algo próximo da sensação de transcendência.



(trecho do texto de Helena Cavalheiro,
 publicado na revista Select #35, em junho de 2017)