Cumbica, de Tuca Vieira

 

No terceiro andar da Casa do Povo, a exposição Cumbica mostra seis fotografias panorâmicas realizadas por Tuca Vieira durante expedição que circundou a fronteira entre o Aeroporto de Guarulhos e os bairros do entorno. O trajeto de mais de 20 quilômetros foi percorrido em 12 de abril de 2017, de bicicleta, a convite dos editores do projeto Contracondutas.

As seis fotografias panorâmicas aqui apresentadas, nos absorvem e nos inserem nos espaços desconhecidos, anônimos, inóspitos e descontinuados dos limites entre essa grande obra de infraestrutura, erguida na década de 1980, e seu entorno imediato. O impacto do aeroporto em suas bordas é revelado por uma sucessão de grades, muros, becos, edifícios-garagem e grandes áreas descampadas, que nos levam a deduzir a existência de uma pista de pousos e decolagens. Em algumas dessas fotos, é evidente o contraste entre os limites murados e a territorialização das populações envolvidas no processo de urbanização daquela região, antes ocupada por uma grande fazenda de terreno alagadiço. O trabalho se insere na programação da 11ª Bienal de Arquitetura de São Paulo e propõe uma reflexão sobre os espaços desconhecidos, anônimos, inóspitos e descontinuados dos limites entre essa grande obra de infraestrutura, erguida na década de 1980, e seu entorno imediato. 

 

Cumbica é o primeiro trabalho de Tuca Vieira depois do celebrado Atlas Fotográfico da Cidade de São Paulo e Arredores, exposto na Casa da Imagem em 2016. Agora, o artista faz uso do formato panorâmico 35mm, sem a rigidez do grande formato utilizado anteriormente, mas dando continuidade à pesquisa que vem realizando sobre a relação entre mapeamento, território, arquitetura e fotografia. 

 

Segundo o urbanista Kazuo Nakano, convidado a escrever sobre o trabalho, “no deserto das bordas do aeroporto, os espaços e as coisas mostradas nas fotografias de Tuca Vieira parecem estar incompletos e inacabados e, por isso mesmo, prestes a se tornarem lisos e serem ocupados por potências diabólicas.”

 

As fotografias, montadas em grande formato, ocupam três salas semi-abandonadas da Casa da Povo, normalmente restritas ao público. O projeto de ocupação desse espaço instável, realizado por Helena Cavalheiro, estabelece um diálogo arquitetônico entre o conteúdo das fotografias, o estado de ruína das salas e a própria cidade que se descortina ao redor.

Exposição "Cumbica", na Casa do Povo, 2018

Texto do urbanista Kazuo Nakano, publicado no livro "Contracondutas"