O fotógrafo que quiser retratar São Paulo não terá à sua disposição os cartões-postais que tantas capitais brasileiras são pródigas em oferecer a cada passo. Cada objeto de sua atenção haverá de destacar-se de um ambiente desordenado e hostil: como se muitos bens culturais, relíquias históricas ou simples recantos pitorescos sobrevivessem, a exemplo de seus cidadãos, num permanente estado de sítio. Claro que, a certa altura, mesmo a violência visual paulistana se torna um motivo plástico: os edifícios cobertos de pichações, os fantasmas de concreto que são os velhos prédios do centro transformados em cortiços verticais, o emaranhado dos fios de eletricidade, as vias elevadas e viadutos trançando novos níveis de asfalto e de concreto por cima de velhas avenidas; os grafites, os buracos, os mendigos, as luzes de congestionamento brilhando sobre a água das inundações, os rostos de pedestres liquefeitos na pressa, tudo isso compõe o quadro de uma cidade em que o espaço, quase inabitável, por isso mesmo se instabiliza e se abre ao exercício da arte fotográfica, no poder que tenha de extrair lirismo do feio e do áspero, de recortar ângulos peculiares dentro de um labirinto feito de impaciência, vandalismo, congestionamentos infindáveis e invencível vontade de seguir em frente.

Um esforço de vista, por parte do fotógrafo, que terá de ser também poeta, irá encarregar-se de fluidificar, de dissolver em associações e metáforas aquilo que, duramente, se impõe como realidade bruta. Talvez isso valha para qualquer cidade. Mas em São Paulo os pontos de interesse estão sempre na dependência de serem salvos, de serem revelados, de serem descobertos em meio a um ambiente hostil. 

Tornar tudo útil, não perder tempo, fazer dos seus problemas e inviabilidades motivo de orgulho e de proveito: nada mais paulistano, nada mais pragmático do que isto. Mas que seja permitido, a quem tem este livro entre as mãos, um instante, breve que seja, de contemplação. As lentes de Tuca Vieira se multiplicaram como os cristais de um caleidoscópio, conseguindo captar, num contraponto de imagens que se renova e surpreende a cada página, tudo o que a cidade tem de extremado, de conflitivo, de inquietante --e de bonito. 

(Marcelo Coelho, prefácio do livro As Cidades do Brasil: São Paulo, Publifolha, 2005)