Esta série propõe uma representação da cidade de São Paulo em tempo de exceção. Nesses dias de confinamento, a cidade se apresenta de uma forma nunca antes vista, tanto pela ausência das pessoas, quanto pelas condições inéditas de qualidade do ar, poluição sonora e luz outonal. Tem sido possível reparar na estrutura urbana com um grau de atenção impossível num dia comum, cheio de estímulos e distrações. Até as cores da cidade se apresentam de outra forma. Portanto, mais do que pela pandemia na cidade, esta série se interessou pela cidade na pandemia, procurando registrar um momento histórico. Seu aspecto dormente pode ser entendido como um dramático testemunho desse período em que estamos todos repensando nosso papel na sociedade e no mundo.

No entanto, nessas imagens, mesmo que a cidade se apresente aparentemente nua, algo mais profundo se esconde. São Paulo, a maior cidade do país, notoriamente conhecida pelos grandes fluxos de pessoas e veículos, nesse momento se mostra desprovida de vida.  Acredito na personalidade, no caráter e da índole das cidades, como elas também se fossem pessoas. Nesse sentido, São Paulo anda muito triste e fragilizada, pois seus profundos problemas sociais a impedem de ter a tranquilidade necessária para a reflexão que outras cidades do mundo vêm fazendo. Nessa grande metrópole brasileira, o futuro nunca foi tão incerto e temerário. O horizonte é de um grande período de problemas econômicos, sociais e políticos.

Apesar da beleza desse outono, com suas luzes douradas pela tarde, há uma falsa calmaria no ar, um silêncio insuportável, que pode significar tanto a espectativa de uma grande libertação quanto uma tragédia ainda maior.