O balé do concreto armado

Aparentemente, é uma injustiça: confinar a liberdade das curvas de Oscar Niemeyer no retângulo espartano da fotografia.
No entanto, a arquitetura (como a escultura), que é arte da tridimensionalidade, proporciona justamente infinitas perspectivas e composições bidimensionais. Há claro, edifícios clássicos, que exigem respeito à simetria e ao rigor da composição, onde um passo ao lado pode deixar tudo torto e desequilibrado. Não é o caso de Niemeyer. Ao caminhar por suas obras, as possibilidades se multiplicam, oferecendo diversas e ricas visões do mesmo objeto. Ao dar o passo ao lado, as curvas e retas se transformam em outras curvas e outras retas.
Se o trabalho da arquitetura passa pelo papel para sonhar com o volume, a fotografia faz o caminho inverso. O fotógrafo busca os desenhos contidos nos volumes, de forma a colocá-los de novo no papel, redescobrindo e redesenhando a prancheta do arquiteto. No caso de Niemeyer, essa tarefa é gratificante. O próprio arquiteto desenhou, por exemplo, as colunas do STF ou do Palácio do Planalto em Brasília pensando no observador. De qualquer ponto de vista elas se multiplicam uma atrás da outra, numa espécie de balé arquitetônico. É também o caso do Congresso Nacional. Há uma verdadeira dança entre as cúpulas e o edifício dos escritórios conforme contornamos, recuamos e avançamos. Na Catedral, sem fachada, é apenas o fundo que corre conforme o circular do observador. Do interior do MAC de Niterói, a beleza da paisagem passeia pelas janelas, como numa película de cinema. As parábolas da Igreja de São Francisco, na Pampulha mudam de forma, mas não deixam nunca de ser parábolas. A fachada do Copan é pura ilusão de ótica.
Niemeyer preza muito a capacidade de surpresa que a arquitetura oferece. O trabalho do fotógrafo é estar sensível à surpresa, como se fosse possível, no caso de Oscar Niemeyer, ser de outra forma.

Rio de Janeiro, 2004