Recentemente, encontrei uma foto minha no Facebook, sem nenhuma menção à autoria, mas com centenas de comentários. Ninguém ali se perguntava quem fez a foto.

Pois ela foi feita há cerca de dez anos para a Folha de S. Paulo e até hoje recebo pedidos do mundo inteiro para reproduzi-la em livros, revistas e material didático. Devo muito a ela. Projetou meu trabalho, me deu prêmios, me levou a exposições aqui e no exterior. Mas o fato é que a imagem me fugiu do controle.

Em 2007, ela foi mostrada na Tate Modern, em Londres, em uma exposição chamada Cidades Globais. Era o cartaz, o convite, o fôlder, o cartão-postal e até o crachá da exposição, que incluía gente como o fotógrafo alemão Andreas Gursky. Fui convidado para a abertura, mas fiquei num hotel inferior e isolado. No dia do evento, descobri que havia um jantar de comemoração, para o qual eu não tinha sido chamado. Foi o artista turco Hüseyin Alptekin que disse: “Se o Tuca não for, eu não vou”. O constrangimento foi geral.

O cara que fez a imagem emblemática da exposição não tinha o status de artista. Exibida num enorme banner no Turbine Hall, a foto possuía ali um caráter mais ilustrativo, diferente das obras de arte, imaculadas, com suas legendas e cordinhas para afastar o público. Foi quando percebi que olhavam para essa foto como se não houvesse um autor. A foto era importante, mas eu não. Comecei a ser apresentado como “Tuca, the guy who took that picture”.

Não pensem que é fácil tirar uma foto como essa. Cuidei da composição, com o muro que divide os dois lados em partes iguais; cortei o céu buscando um efeito bidimensional e hipnótico. Dei vários giros com o helicóptero, orientando o piloto. Ela faz parte de uma série de fotos que fiz nessa época sobre São Paulo, e não é fruto do acaso.

Mas nada disso importa para quem a vê. E hoje essa situação já não me incomoda. Criada no ambiente do jornalismo, essa foto talvez me faça atingir o que deveria ser o grande objetivo de um artista: provocar uma reflexão sobre o mundo e não sobre a obra e seu autor. Talvez esse seja o grande mérito da foto. Ela se libertou do autor e do contexto original para enriquecer um debate sobre o Brasil, sobre a América Latina, sobre a desigualdade. Para um filho de socialista, criado num ambiente de indignação e desejo de transformação social, nada poderia ser mais gratificante. Jornalismo, arte e política aqui são indissociáveis.

E veja que, a rigor, a-foto-da-favela-de-Paraisópolis (isso soa como um mantra incessante, um verso alexandrino em busca de uma rima que lhe dê repouso) não mostra exatamente como são as coisas. Nesse prédio com as piscinas não estão os mais ricos, que, por sua vez, não moram colados aos mais pobres, que, por sua vez, não são os moradores de Paraisópolis. O poder simbólico e didático da imagem prevalece, com sua gramática visual simples e direta. Há quem diga que é Photoshop, o que parece mais uma descrença no que a cena mostra do que na foto em si. O absurdo da imagem nos impõe uma sensação de derrota inaceitável: como deixamos que as coisas chegassem a esse ponto?

Às vezes essa foto me enche o saco. Tenho projetos novos para mostrar mas a cena de Paraisópolis com frequência ofusca outros trabalhos. Para alguém jovem como eu, é difícil falar em legado. Mas é um tema que me vem involuntariamente quando surge essa foto. Será que é isso que quero deixar para o futuro? Será que tudo mais que eu fizer nunca vai ter a importância dessa única foto?

Li outro dia que nos últimos quatro anos foram feitas mais fotografias do que em todo o resto da história da fotografia. Pensando bem, talvez não seja tão mau ter pelo menos uma que importa.


(originalmente publicado da revista ZUM #3, em dezembro de 2012
os comentários a que se refere o texto estão aqui)


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Slideshow exibido na exposição Esquizofrenia Tropical, Photoespaña, Madri, 2012




Trecho de programa da tv alemã Galileo Big Pictures